
|
A Atenção
por Luciano Pires
Me escreve a leitora Lúcia, que é médica, sobre o artigo em que falei da “segunda chance” para as vítimas da violência urbana:
“Acredito que somente teremos uma segunda chance a partir do momento em que mudarmos nosso olhar para com o mundo e para com as pessoas. O ser humano anda tão desvalorizado que desesperadamente luta por poder e "diferenciamento" de forma que receba aquela atenção de que tanto precisa. Vou te dar um exemplo. Certa vez atendi um paciente com alto poder aquisitivo que tentou mostrar que era diferente pelo que tinha. Mas no fundo, apenas queria uma escuta de qualidade de um profissional que realmente quisesse saber como ele estava, não só fisicamente, mas também e principalmente humanamente, por dentro... Queria ter a certeza de que estava sendo bem atendido do ponto de vista técnico, mas que este conhecimento estivesse acima de tudo sendo aplicado humanamente. E é o que todos nós esperamos, não é mesmo? E quando pacientes como aquele recebem atenção, tornam-se iguais a qualquer outro paciente, seja morador do Morumbi ou da favela, Todos estamos envolvidos neste sistema meio mercantilista de atenção. Imagina o que não sente o pobre que não tem nada? Enquanto não mudarmos este olhar, enquanto não nos dermos conta de que estamos envolvidos, absortos neste sistema que se manifesta sutilmente até mesmo nas relações de afeto, a segunda chance ficará mais remota.”
A Lúcia levanta um tema interessante, o mercantilismo da mercadoria mais valiosa nestes nossos tempos: a atenção. Filhos querem a atenção dos pais. Alunos, dos professores. Doentes, dos médicos. E quem é que realmente tem a nossa atenção? Pare e pense. Para quem você verdadeiramente dá sua atenção no dia a dia? Talvez você descubra que ela tem sido manipulada por profissionais, que a desviam das pequenas coisas que realmente importam, para as luzes, ruídos e formas que vão te vender alguma coisa. A Lucia prega um novo olhar para o mundo, para as pessoas. Um olhar que dê atenção para o que realmente importa. Legal, né? Pois assim que terminar de assistir o Domingão do Faustão, vou pensar a respeito...
|
|