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Ao invés de Hermes, por que não Exu?
por Alexandre Pelegi
Não adianta. O Brasil só respirou carnaval nos últimos dias, e qualquer assunto que não fosse ligado a Momo e seus folguedos, o destino acabou sendo o esquecimento.
Jornais e TVs só fizeram falar de assuntos candentes como, por exemplo, as rainhas de bateria, geralmente e quase sempre celebridades globais e modelos esculturais. Claro, houve o caso especial de Preta Gil, que apesar de fugir ao figurino físico padrão, sabe entoar, como ninguém, a cantilena preferida das revistas de fofocas e que-tais. Pior: foi rainha de si própria, numa Mangueira que tropeçou na própria tradição...
O Brasil parou, como costuma parar sempre, e contra tal certeza não há que se perder tempo com argumentos. Eu, como milhões de brasileiros, preferi descansar e botar minhas leituras em dia. Mas não me furtei a assistir maravilhado o desfile das escolas do Rio.
Eu sei, a dinheirama que rola solta por ali é, boa parte dela, de origem suspeita. A maioria dos caciques das escolas de samba fuma cachimbo nada ortodoxo, e a riqueza exposta na avenida contrasta com a pobreza dos que desfilam... Sim, mas e daí? A polícia e a justiça que resolvam...
Sabendo tudo isso, e desconhecendo com certeza muitas outras coisas, preferi enxergar o que me encanta não é de hoje. Vamos aos fatos.
Fiquei encantado em descobrir a organização maravilhosa que circunda as escolas de samba. São milhares de pessoas trabalhando, cada qual no seu pedaço, a maior parte dos dias do ano, para no final comporem, juntas, um espetáculo de rara beleza e incrível organização e conjunto. Como diriam os colonizados, parece coisa de primeiro mundo... Se podemos fazer este carnaval maravilhoso, seremos capazes de qualquer coisa. Nosso povo é fantástico, alguém duvida?
Em segundo lugar, chamou-me a atenção o esforço que resiste, e cada vez de forma mais intensa, no resgate de aspectos culturais que deram origem não só ao samba e ao ritmo maravilhoso dos batuques, como principalmente a essa rica mistura que se convencionou chamar “povo brasileiro”. Sem vergonha de preconceitos, muitas escolas levaram para a avenida temas que, no dia-a-dia, são tratados com desdém e arrogância. O que os intolerantes denominam pejorativamente por “macumba”, na locução da TV Globo tornou-se “mitologia africana”...
Dentre várias escolas, cito o exemplo da comissão de frente da campeã Beija Flor, que teve coragem de escancarar a cultura que muitos teimam em esconder por vergonha, medo ou ignorância. Um séqüito de guerreiros acompanhando um rei e uma rainha, trazia à frente a figura de Exu.
Para quem prefere o preconceito, seria de bom tom se informar melhor sobre esta cultura maravilhosa que herdamos de nossos ancestrais africanos. Se você ainda acredita na parolice de que Exu seria similar ao diabo do cristianismo, eis aí uma boa hora para se informar melhor. Se você acha charmoso falar de Hermes, o Mensageiro dos deuses do Olímpio, aprenda com a comunidade de Nilópolis que este mito grego guarda estreita correspondência com o africano Exu.
O carnaval carioca este ano nos deu uma maravilhosa aula de história. Só não aprende quem não quer...
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