- 10/05/2007 07:20
O prisma utilizado pelo papa (Leonardo Boff – site Nominimo)
Leonardo Boff comenta a visão de mundo de seu ex-orientador, Bento 16.
Como teólogo acadêmico, Joseph Ratzinger se envolveu ativamente nas discussões sobre a identidade européia e sobre os desafios a modernidade. […]
O que pesa em seu pensamento é o lastro cultural formado na escola de Santo Agostinho (+450) e de São Boaventura (+1274), sobre os quais escreveu duas brilhantes teses. Ambos têm isso em comum: o mundo é uma arena onde se enfrenta Deus e o diabo, a graça e a natureza, a cidade de Deus e a cidade dos homens. O pecado das origens produziu uma tragédia na condição humana: esta ficou tão decadente que sozinha não consegue se redimir e produzir uma obra que agrade a Deus. […]
Este tipo de teologia leva a uma leitura pessimista da cultura. Isso se percebe na leitura que o teólogo Ratzinger faz da modernidade. Nela vê antes de tudo arrogância, relativismo, materialismo e ateísmo, esforço humano em busca de emancipação por seus próprios meios. Missão da Igreja é desmascarar esta pretensão, levar-lhe clareza de princípios, segurança na obscuridade e verdades absolutamente válidas.
Esta teologia contém muito de verdade, pois há efetivamente decadência na modernidade. Mas esta não poupa também a Igreja que é feita de justos e pecadores. Entretanto, importa alargar o horizonte teológico. Faz-se mister inserir junto com Cristo uma teologia do Espírito Santo, praticamente, ausente em Santo Agostinho e no teólogo Ratzinger. Uma teologia do Espírito permitiria ver no mundo moderno, como fez o Concílio Vaticano II (1965) grandes valores como os direitos humanos, a democracia, o trabalho, a ciência e a técnica.
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- 10/05/2007 07:16
Fiéis ou espectadores? (Clóvis Rossi – Folha de SP)
PARIS - Se os católicos mais fervorosos me perdoarem, diria que terá importância efêmera, passageira, o que o papa Bento 16 dirá ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou ao público em geral. Viagens papais transformaram-se em grandes espetáculos para a mídia, com a vantagem de que fazem com que, no país visitado, se fale muito da igreja, do papa, de seus pensamentos, de seus atos. Ou seja, informa-se o público de uma porção de coisas que, no dia-a-dia, ficam soterradas por outros temas mais espetaculares.
Mas, depois, pouco ou nada fica de concreto. É só fazer memória: Bento 16 esteve muito recentemente na Turquia, com toda a publicidade decorrente de suas observações prévias sobre o suposto caráter violento do islã. Foi uma visita bem-sucedida, mas, assim que o papa partiu de regresso, a Turquia voltou a discutir um suposto ou real avanço do islamismo, sem que ficasse rastro nenhum da passagem ou das palavras do papa.
Mais memória? João Paulo 2º, inquestionavelmente mais midiático que seu sucessor, esteve três vezes no Brasil. O número dos que se dizem católicos diminuiu, apesar das multidões atraídas pela sua passagem e da atenção que suas palavras atraíram no momento. Hoje, exceto um ou outro analista de assuntos da igreja, ninguém lembra de uma palavra que seja, ao menos uma, das muitas ditas por João Paulo 2º no Brasil. Eu cobri a primeira viagem de João Paulo 2º (ao México, 1979).
Foi realmente impressionante. Até achei que deixaria marcas profundas. Mas, quase 30 anos depois, ainda vale a frase do ditador Porfírio Díaz (1830/1915): "Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos".
Se o atual papa prefere mais qualidade que quantidade de fiéis, esse tipo de viagem parece contraproducente, na medida em que produz mais espectadores que fiéis.
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1º de Maio: a passagem do tempo - 09/05/2007 06:49
1º de Maio: a passagem do tempo (Boris Fausto – Folha de SP)
O jornalista Edgard Leuenroth, que, acima de tudo, foi um exemplar líder anarquista de São Paulo, costumava contar uma história a jovens militantes, isso há uns 50 anos, sobre as celebrações do 1º de Maio em época anterior a 1930. Tentando resumir, Leuenroth dizia que, na véspera do Dia do Trabalho, a polícia prendia, como prevenção, os militantes anarquistas mais conhecidos. Presos, mal dormiam, na expectativa do que aconteceria pela manhã, bem cedo. Quando tudo ficava em silêncio, quando o apito das fábricas não cortava o ar, comemoravam atrás das grades, na certeza de que dera certo a greve geral anunciada nos panfletos e preparada com muito cuidado. A cena, até certo ponto idílica, embelezada pela memória, dá margem a alguns retoques. Os militantes eram puros e duros, mas, afinal de contas, seres humanos, com todas as suas virtudes e fraquezas; a classe trabalhadora era quase carente de direitos, e os anarquistas, ao contrário do que alguns historiadores chegaram a pensar, nunca passaram de um pequeno grupo, mais significativo pela contracultura do que pela atuação política, com uma influência difusa entre os operários imigrantes. A história contada por Leuenroth me veio à mente quando lia o relato das comemorações do 1º de Maio deste ano em São Paulo. Que distância no tempo! A partir de 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, a legislação trabalhista foi sendo gradativamente implantada, os sindicatos- sob controle do Estado- foram legalizados e sustentados pelo imposto sindical, alguns direitos sociais estenderam-se bem depois aos sempre esquecidos trabalhadores do campo. Alguns traços das comemorações do 1º de Maio deste ano representaram uma continuidade com o que ocorreu em anos anteriores. Assim, a hoje consolidada transformação de um dia de luta em um dia de festa, cujas maiores atrações são os sorteios de prêmios valiosos -como automóveis e apartamentos- e um show de cantores populares. A muito custo os sindicalistas conseguem intercalar algum discurso, no qual a retórica estridente mal oculta o vazio de conteúdo. Censurar a massa popular por esse comportamento não faz sentido, pois a tendência à despolitização e a busca de alcançar a realização de sonhos individuais fazem parte de todo o universo social, e não deste ou daquele segmento. Mas surgiu na festa um traço novo. Pela primeira vez, as duas maiores centrais sindicais -a CUT e a Força Sindical-, embora realizassem eventos separados, colocaram-se ao lado do governo. Há boas razões para isso. Na verdade, a elite sindical, em grau variável, chegou ao poder. Em grau variável, pois uma coisa é a inserção governamental de quadros provenientes da CUT, e outra, a da Força Sindical, que tem vinculação estreita com o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, detentor da chave do Fundo de Amparo ao Trabalhador. De sua parte, apesar das repetidas afirmações dos primeiros meses de seu primeiro mandato, o presidente Lula "se esqueceu" das reformas trabalhista e sindical que, hoje, a rigor, se resumem à proposta de repartir uma parte do bolo do imposto sindical entre os sindicatos e as centrais. Isso não significa, é claro, que tenha sido finalmente implantada a república sindicalista, objetivo dos populistas radicais no passado e fantasma exorcizado, pela via do golpe, pelos militares e as hostes conservadoras. Vários setores do governo, especialmente os da área econômico-financeira, estão bem distantes da origem e da visão de mundo do sindicalismo. Mas a ideologia e os métodos dominantes nos meios sindicais explicam muito de certas características do atual governo, a começar pelo presidente da República. Assim, não há nada de surpreendente no léxico do deputado e líder da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, que trata de dar "dignidade" ao tema do meio ambiente, transformando-o de "coisa de veado" em coisa de macho a ser encampada pelos trabalhadores. Nem deve nos surpreender as propostas autoritárias que surgem de tempos em tempos. Por ora, a última foi a do deputado e ex-líder sindical Ricardo Berzoini, que sonha controlar a mídia em época eleitoral, "para evitar abusos".Lembro, saudosamente, a figura de "seu" Frias, que, com sua tenacidade empresarial e sua pertinácia na construção de uma imprensa independente, aberta a muitas vozes, legou ao país um jornal tão importante como a Folha de S.Paulo.
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E o papa vem aí - 09/05/2007 06:28
E o papa vem aí (Pedro Doria – Nominimo)
A reportagem principal sobre nosso continente da Economist, esta semana, trata da diminuição do número de fiéis católicos no Brasil e na América Latina. O tema está em todos os jornais, por conta da visita de Sua Santidade Bento 16, que chega hoje, em São Paulo. Só há um detalhe: o papa não está preocupado. Não é por isso que veio. João Paulo 2o, um homem carismático e, no início de seu pontificado, atlético, encarava o trabalho de evangelização, de conquistar e manter fiéis, como missão. Ele tinha energia o suficiente para meter-se num avião após o outro, visitou quase que todo canto do mundo para o qual foi convidado. Gostava de grandes eventos. Joseph Ratzinger, o papa atual, não é um evangelizador e, muito provavelmente, esta será a última visita que fará à América Latina em vida. Diferentemente de João Paulo 2o, encara sua missão de forma diferente. Ele se vê como um papa de transição. Quer botar a Igreja de volta nos eixos – ou naqueles eixos em que crê que ela deveria estar. Suas missões são, em grande parte, já bem conhecidas. Casamento homossexual, não, de jeito algum. Aborto, não – e, depois que a Cidade do México e Portugal o legalizaram, o pontífice começou a olhar muito assustado para o mundo íberoamericano. O fato de que o novo ministro da Saúde brasileiro anda levantando a bola da discussão não escapou à atenção vaticana. Da mesma forma, estudo com células tronco embrionárias, também não. Esta é, em grande parte, a pauta política. Aquilo que ele gostaria que os governos latino-americanos ouvissem. Um último detalhe é a instituição do ensino religioso nas escolas públicas. A recomendação do Itamaraty é de que o governo brasileiro ignore, nos bastidores, qualquer pedido de compromisso do chefe do Estado do Vaticano que venha nestes sentidos. Um Estado não deve interferir no outro. Outra discussão, de forma alguma menos importante, é a representação do Vaticano no continente. Bento 16 vem para enquadrar cardeais, bispos, padres, presbíteros, seminaristas e seja quem mais for. Teologia da Libertação, e sua preferência pelos mais pobres, não. Buscar um Jesus mais humano, não. Falar de maior aceitação de mulheres na hierarquia católica, não. Bento 16 vai além. Se de um lado não agrada a Teologia da Libertação, o modelo de catolicismo nascido nos EUA e que segue os macetes evangélicos de culto, o movimento carismático, também não pode. Não é o que a Igreja é. Se não pode frei Leonardo Boff, padre Marcelo, também não. O que ele quer dizer – e dirá aos cardeais – é muito simples: a Igreja não muda. Não se moderniza. Ela é o que é e busca fiéis que a compreendam pelo que é. Como sempre foi. Como continuará sendo. Jesus é Deus e, a partir dele, compreendemos o Senhor. Este é um conceito teológico antigo como a Sé de Braga, em latim resume-se por Ecclesia immaculata ex maculatis – Igreja sem pecados composta por pecadores. A Igreja não erra, embora alguns de seus membros possam errar. Ela, a instituição, é perfeita. É antigo como a Sé de Braga e, dentro da instituição, sua oposição é igualmente antiga. Karl Rahner, talvez o mais importante teólogo do século 20, chamava atenção para o fato de que sem pecados embora composta por pecadores é uma abstração, algo possível de se imaginar mas impossível na prática. A instituição é o que seus membros são. A oposição também tem nome em latim: Ecclesia semper reformanda – a Igreja em constante necessidade de reformas. A Teologia da Libertação sempre favoreceu este necessidade de adaptação. Assim como sempre favoreceu – à moda de Santa Tereza D’Ávila – uma visão mais humana de Cristo, coisa que o atual papa abomina. Diferentes pontos de vista, na Igreja, não são novos. E continuarão existindo. Mas o momento é de pausa. O papa está chegando para enquadrar seus assessores na região.
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Tô de volta! - 09/05/2007 06:28
Tempo escasso, correria, e a gente acaba não cumprindo com as obrigações mais comezinhas. E justamente (incrivelmente!!!) as que mais nos dão prazer... Pois é, volto a atualizar este Blog. Com textos que acho polêmicos, e portanto mereçam a atenção de todos. Com poesias que acho lindíssimas. Com crônicas que marcaram épocas. Tô de volta!
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