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Heloisa Costa – Maluca pela Educação


(Mariana Reade)


A história começa na periferia de Salvador, com pais semi analfabetos que sempre se esforçaram para mantê-la no colégio. Desde criança Heloísa sonhava em ser professora.  Conseguiu entrar na faculdade de língua portuguesa, e para ajudar a família vendia acarajé na praia. Seus pais sempre apoiaram sua luta para que conseguisse se tornar professora.

Diretora pela primeira vez

Heloísa se tornou diretora pela primeira vez na escola Visconde de Mauá. Lá pôde colocar em prática o que sempre acreditou: uma educação mais participativa e prática. Mesmo que para isso se tenha que errar e acertar, ela acreditava que só através da desarrumação das coisas é que se poderia progredir. Quando deu 100 anos da Guerra de Canudos, pegou seus alunos para ver de perto a História que aprendiam nos livros. Os alunos, hoje adultos formados, lembram com carinho dos dias que tiveram que dormir dentro do ônibus para conhecer uma das partes mais marcantes da história do Brasil.

Sou maluquinho pela minha escola

Heloísa havia realizado seu sonho de ser professora, havia se tornado diretora de uma pequena escola onde tudo funcionava maravilhosamente bem. Foi então que foi transferida para uma escola enorme que se encontrava em estado caótico. Chorava todos os dias, triste por ter partido da escola pequena e desesperançosa para conseguir resolver os problemas da nova escola.  Tudo estava ruim: não conseguia criar relação com os professores, não era aceita como diretora, a escola estava caindo aos pedaços e os alunos faziam o que bem entendiam. Um dia, sozinha por acaso na sala de vídeo, encontrou o filme “Cuida Bem de Mim”. (peça de teatro adaptada para vídeo que discute sobre como cuidar da escola pública.) Heloísa sabia que a solução tinha chegado! Acho especialmente engraçada essa passagem, porque era um acontecimento tão simples que tinha a força de renovar as esperanças de Heloísa.

Convidou todos os professores para assistir o vídeo. Heloísa tinha preparado um lanche surpresa para que no final do filme todos se reunissem para comer e conversar: O resultado foi lavagem de roupa suja geral, todos se culpavam porque achavam que a escola tinha decaído. Então a maravilhosa pergunta: como poderiam mudar aquela situação? Ali começava o trabalho coletivo. O grande dia viria no momento de mostrar o vídeo para os alunos, sala em sala, conversa a conversa, tentando assim despertar o interesse coletivo para criar uma escola legal. Os professores, pouco a pouco, foram ganhando os alunos com aquela idéia de transformar a escola da água para vinho: Os alunos já iam para escola mais arrumados, a escola estava ficando mais limpa e as regras passavam a ser respeitadas.

Agora era hora de incluir os pais! Heloísa acredita que quem dá a nota é o pai. Para ela, sem o envolvimento da família a escola não consegue funcionar bem. Na preparação para a grande sessão de filme, muitos professores se ofereciam para trazer sua televisão de casa, pra poder espalhar por todas as salas e criar pequenos grupos.  

Foi então que um dos alunos teve idéia de fazer o desenho do Menino Maluquinho segurando a escola no colo, com a seguinte frase: “SOU MALUQUINHO PELA MINHA ESCOLA.” Este virou o slogan da campanha! O dia da festa chegou, professores e alunos vestiam camisetas com “SOU MALUQUINHO PELA MINHA ESCOLA” e esperavam pais nas várias televisões espalhadas pela escola. E foi então que apareceu a palavra mágica: mutirão. Foi ali que tudo começou a mudar. Nos feriados seguintes a escola ficava repleta de pais e mães que trabalhavam como carpinteiros, cozinheiros, pintores, capinadores, tudo para reformar e reorganizar a escola!

Ainda não era o suficiente para Heloísa, pois os muros da escola continuavam pichados… Heloísa queria mesmo era fazer amizade com os pichadores. Conseguiu uma micro reunião, a participação era pequena, mas lá estavam os três primeiros que Heloísa ia saber conquistar: ela queria era usar o talento deles! Por que pichar contra a escola ao invés de a favor da escola? Afinal eram eles os ARTISTAS DA NOITE! E foi assim que o tema da campanha: “SOU MALUQUINHO PELA MINHA ESCOLA”, virou um lindo desenho pichado em todos os muros da escola. O próximo passo era geração de renda. Eles acreditavam que juntos poderiam usar o talento dos meninos como tema de agendas, cadernos.

Como sempre na vida da Heloísa, quando tudo ia muito bem era o momento das coisas mudarem…. As agendas e cadernos tiveram que dar lugar para a escola nova de São Cristóvão! Heloísa foi jogada, uma vez mais, no olho do furacão.

São Cristóvão

A história da Escola São Cristóvão era de longa luta e persistência, anos a fio onde Heloísa e seus “aliados” tentavam convencer a Secretaria de Educação a investir numa escola modelo, criar a escola ideal do Ensino Médio. A Secretaria aprovou o projeto e conseguiu um terreno no bairro de São Cristóvão, um dos mais pobres de Salvador.  Anos de construção, e na estréia da escola o medo era grande: muitos diziam que a escola ficaria vazia e que os alunos não iriam até aquele fim de mundo. Passados sete anos da inauguração da escola, eu tive a maravilhosa experiência de conhecer uma amostra do que pode ser a Educação Pública no Brasil.

No início, com a escola ainda desacreditada, quase não havia alunos nem professores. Os alunos mais velhos ajudavam na merenda, como monitores, e improviso era a palavra chave para driblar tanta dificuldade. Bom agora é poder dizer que atualmente a escola tem uma fila de espera enorme, e conta com a lotação máxima em cada uma de suas salas. 

O ideal de Heloísa estava em conciliar o país agrícola e o país moderno! Não queria ver esses dois mundos separados e seus maiores projetos estavam na horta e na informática. Ajudar a comunidade na base, e introduzir a informática como parte do dia a dia. O primeiro grande desafio era instrumentalizar as pessoas para usar as máquinas. Seu sonho era que o computador não ficasse fora do conteúdo formal. O professor de física conseguiu fazer parceria para criar o jornal da Física e os alunos aprenderam nas aulas de artes a fazer planta baixa, desenhando os banheiros e quartos de suas casas. Quando a horta começou, muita gente não colocou fé. Passados alguns anos os frutos chegaram, e hoje em dia as famílias recebem produtos da horta para ajudar na alimentação de casa. E que me perdoem os maravilhosos pesquisadores da química, mas infelizmente muitos alunos de escola ainda se aterrorizam diante da tabela periódica. Mas que criança não se interessaria por criar um material de limpeza e vê-lo sendo usado dentro da própria escola? Ali estava a idéia da educação integrada: juntar o mundo teórico do prático, a fórmula da mão na massa, a química da economia. A escola economizou muito depois que os equipamentos de limpeza passaram a ser fornecidos pelas oficinas de química. Próximo passo: criar uma marca do produto de limpeza e fornecer para o banco do governo.

Também impressionante foi ver crianças de sete, oito, nove anos fazendo fila no recreio na porta da Biblioteca. Saíam correndo da sala para passar o recreio ao lado dos livros! Era mesmo comovente ver pequenas crianças passando reto do lanche para disputar seu lugar na fila. E o que dizer das duplas que iam jogar xadrez, pois a escola acreditava que era excelente ferramenta para desenvolver o raciocínio!

Para Heloísa, que não está mais na escola, o mais importante é o trabalho de equipe. O grupo funciona bem mesmo depois de sua saída. Heloísa sempre acreditou que a maneira mais eficiente de manter as conquistas está no trabalho coletivo. E por isso envolver a comunidade era tão importante: hoje em dia são muitas famílias inteiras que estudam ali: crianças de dia e pais à noite. Além disso, a escola também abre durante os fins de semana para que seja aproveitada como área de lazer pelos moradores da comunidade.

Aposentadoria

Infelizmente no nosso país a sociedade “meritocrática” ainda não está em uso. Quem poderia imaginar que uma mulher competente, inovadora e boa gestora seria convidada pela então Secretaria de Educação a se retirar? Que se retirasse da Escola São Cristóvão para provar que ganharia o trabalho de equipe, e não apenas sua liderança, de certo seria saudável para provar a muita gente cética que quando as fundações são sólidas o líder pode partir e a casa não desaba. Mas sair da área da Educação em um Estado onde os caminhos são ainda tão longos para trilhar? Que seus sucessores possam ter a força, coragem e serenidade que Heloísa sempre teve para conseguir transformar flechas em flores. E que nosso país aprenda a valorizar pessoas que dedicam sua vida ao bem público.



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