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21 mulheres nas montanhas da Paraíba

(Mariana Reade)

 

Eram 21 mulheres nas montanhas da Paraíba, em uma pequena cidadezinha chamada Pilões. Depois que a fábrica local foi à falência, muitos dos maridos perderam o emprego e ficou muito difícil arranjar outra coisa. Foi então que Helena teve a idéia de pedir ajuda ao SEBRAE e pensar no que poderiam fundar: depois de longas reuniões chegaram à conclusão que o melhor seria fundar uma cooperativa. E o que fazer? Pensaram em tudo, fábrica de doce, fábrica de rede? Mas nenhuma delas tinha muita experiência de trabalho. Nenhuma delas trabalhava por falta de oportunidade, não havia nada na região e era muito difícil ter um emprego. Mas sabiam mexer na terra! Ali estava o caminho. O que precisa de muita gente e pouca terra? Flor! Helena doou o terreno para a cooperativa.  

Mas então veio o primeiro problema: o investimento em flor é muito alto. E começou a peregrinação nos bancos. Helena e Carla foram de banco em banco, e ouviram de tudo: “uma cooperativa de flores? Só de mulheres?” E lá vinha o preconceito... Primeiro porque era um grupo de mulheres, os gerentes já olhavam atravessado. Depois porque era um investimento alto e eles não colocavam fé, elas não tinham nem mesmo uma garantia, tinham apenas vontade de trabalhar. E assim enfrentaram os dois grandes problemas: o preconceito contra as mulheres e a questão da garantia. Foram 3 anos e meio de decepções até que encaminharam o projeto para o COOPERAR, projeto do Banco Mundial (Community Driven Development) de combate à pobreza rural no nordeste rural.

Era um grande sonho ter um trabalho, ainda mais em uma cooperativa. Mas os maridos não deram o menor apoio e diziam: “Se a Usina faliu, então imagine uma cooperativa, ainda mais só de mulheres. E quem haverá de comprar flor?” Ninguém nunca tinha visto cultivo na região que não fosse cana de açúcar ou banana. Flor era mesmo uma novidade. Mas elas insistiram e levaram o projeto adiante.

O Banco Mundial aprovou o projeto e em seis meses conseguiram o dinheiro! Mas elas precisavam entrar com a contrapartida: 10% do valor. Eram oito mil e quatrocentos reais e não existia a menor possibilidade de ter esse dinheiro. Então o valor seria a mao de obra necessária para montar as estufas. Foi muito trabalho, não tinham dinheiro para pagar nenhum trabalhador e tudo ficou por conta delas. Trabalharam 10 meses de graça, trabalho duro e ouvindo desaforo dentro de casa. “Aí foi que a briga foi feia dos maridos. Aí foi que foi as confusão. A gente sofreu mais do que sovaco de aleijado, minha filha. Não foi fácil não, viu? Sofremos demais mesmo. Mas, eu acho que as coisas só dá certo quando a gente sofre, quando a gente luta.”

O contexto machista era forte: os maridos não queriam que as mulheres saíssem de casa, e de certa forma, se libertassem. Eram brigas e ameaças o tempo todo. Houve até marido que falou para escolher: a cooperativa ou a casa. “Aí foi um dia ele chegou aí e disse assim: ‘vamo escolher um dos dois. Ou a cooperativa ou a casa!’ Eu digo: ‘eu escolho a cooperativa! Porque a cooperativa eu posso receber o meu dinheiro e você todo dia não tem pra me dar, né? O jeito então era eu enfrentar. Graças a Deus, até hoje estamos batalhando, né.’

Elas não se intimidaram. E quando uma fraquejava, as outras ajudavam a manter a esperança e a força. A estufa ficou pronta e então, no décimo primeiro mês, veio a primeira renda! E tudo mudou através daquele salário, que na época era o equivalente a um salário mínimo. Passaram a colocar o que faltava dentro de casa, e comprar o que queriam para os filhos e elas mesmas. Um salário que mudava várias vidas. Elas conseguiram, além da melhora material, o respeito dos maridos, que agora as olham com outros olhos, com respeito. E conseguiram, junto com o respeito, a liberdade. Quem não estivesse feliz que saísse pela outra porta, elas agora tinham dinheiro e não dependiam dos maridos para sobreviver. As relações melhoraram e teve muito marido que passou a ser mais carinhoso. “E até hoje o povo sabe a nossa história, porque foi uma história de luta, foi uma história de sofrimento. Hoje tá florido, hoje tá um mar de rosa, tá tudo flor. Todo mundo tá sendo mais bem amada, mais acariciada, mais beijada. Todo mundo, sabe. A gente feia que só, mas quando chega em casa, o marido: ‘mas tu tá é bonita, que só a moléstia, mas hoje é que tu tá linda!’”



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