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Montanha russa
(Denise Ribeiro)
Você nunca vai saber por que ele não ligou no dia seguinte. Jamais saberá por que aquela figura doce, aparentemente madura e que parecia ter ficado de quatro por você sumiu do mapa. Talvez ele tenha essa capacidade dos aliens de se transformar naquilo que você quer ver, ouvir, tocar. As palavras certas, as intervenções na hora exata, a cabeça consentindo ao final de cada frase sua, como quem entende seus motivos, te dá razão.
Talvez ele seja um cão perdigueiro disfarçado de gente. Farejou de longe sua carência afetiva e bateu em retirada, antes que você lhe cravasse as unhas envenenadas de carinho. Sentiu a urgência dos seus beijos, a languidez com que você se entregou a cada carícia e achou mais prudente não prolongar seu martírio.
Veja pelo lado bom. Ele foi mesquinho ao te incendiar só por uma noite, mas um gentleman por fazer eclodir seu erotismo – um vulcão a céu aberto. Não pense que ele possa ser um clone do Iceman, morrendo de medo do fogo que emana do seu sexo. Prefira a versão de que ele é o tipo de homem incapaz de conviver com seu calor, com sua temperatura e seu destempero. Incapaz de dar conta da sua autonomia na cama, de sustentar o seu fôlego de gata no cio.
Imagine que ele seja mesmo aquele homem sensível, sem uma palavra de crítica à ex-namorada, “companheira e cúmplice sem igual”. Você estaria pronta para aceitar esse grau de lealdade? Estaria disposta a ser tão compreensiva quanto ela, que trouxe mais uma amiga para a alcova, na tentativa desesperada – e inútil – de manter esse namoro sensível?
Você nunca saberá se ele gostou mesmo de estar com você, se sorriu pra cumprir tabela, se tremeu na saída do restaurante, ao pôr a mão na sua cintura. Jamais saberá se te achou over pelo seu cinismo confesso ou porque deu pra ele no primeiro dia.
Mas de uma coisa você pode estar certa: além de mais um desencanto você ganhou convicções. Aprendeu que não vale à pena insistir nas expectativas, que morenos gostosões nem sempre são sinceros e que tesão, assim como o álcool, turva nossa capacidade de julgamento.
Nada que não se resolva no próximo encontro para o qual você irá armada do seu indefectível ar romântico e da certeza de que, agora sim, achou “o” cara. Fazer o quê, se vida é o aqui e agora e não existe vacina contra a esperança? Você nunca vai saber por que aquele idiota não ligou no dia seguinte. Azar o dele, que ficará sem o seu beijo caliente, suas tiradas inteligentes e seu sorriso de menina.
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