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Os olhos azuis de Everaldo destoam da paisagem agreste em que ele habita. O nome da cidade é bonito: Glória do Goitá, no interior de Pernambuco. Mas até que os jovens tomassem o destino do lugar nas mãos, ali era mais um desses fins de mundo, em que o poder é exercido sempre pelos mesmos. Prefeitos, latifundiários, senhores de engenho, donos da estação de rádio. Eles se locupletam com as verbas públicas, vão anexando mais hectares às suas terras, enquanto seus conterrâneos padecem de pobreza crônica.
Meu Deus! Até quando vamos fechar os olhos para tanta desigualdade, tanta luxúria, tanta desfaçatez, tanto trabalho escravo? Mulheres e crianças debruçadas sobre pilhas de mandioca, horas a fio, singrando o facão com destreza até não sobrar casca alguma sobre o tubérculo.
Quem havia de imaginar, na urbe paulistana, nos círculos da prepotente intelectualidade do sudeste, que existe uma profissão chamada raspadeira de mandioca? Felicidade – não a lida com o facão, que isso é sina –, a mãe de Everaldo, era raspadeira. Foi dela, de dona Felicidade, que Everaldo herdou o azul dos olhos. E com ela seguiu muitas vezes para a casa de mandioca, ajudando com suas mãozinhas miúdas, a mãe a raspar. Assim levam a vida as raspadeiras, da hora que o sol nasce até o poente: raspando, olhando os filhos ao seu redor e cantando.
O menino se impressionou com a dura rotina de Felicidade e suas companheiras. Tanto que foi o único, entre os 17 filhos dela, a mudar a própria sorte. As raspadeiras de mandioca foram o tema do documentário que Everaldo produziu como trabalho de conclusão do curso de Comunicação.
Quem havia de imaginar, na pacata Glória do Goitá, que o menino de olhos azuis, se transformaria num homem estudado e bem sucedido? Quem, entre os colegas do grupo, tão pobres como ele, mas que o discriminavam porque era do sítio, havia de imaginar que Everaldo seria alguém na vida?
Branquelinho, branquelinho, Everaldo chegava cor de camarão na escola, depois de caminhar sob o sol inclemente. Às vezes ia descalço, mas orgulho mesmo tinha dos cadernos encapados. De saco de pão e sacola de supermercado. Era a maior briga, quando aparecia um desses saquinhos na casa dele, as crianças o disputavam a tapa.
Everaldo se formou, fez cursos técnicos que deram a ele a exata noção da importância do trabalho no campo, e ganhou o mundo. Hoje sabe que é preciso conscientizar os jovens do seu papel na sociedade. Ensiná-los a cavar um lugar na cidade onde vivem, se pretendem operar mudanças no mundo.
O grupo que Everaldo ajudou a fundar em Glória do Goitá chama-se Giral e anda de vento em popa multiplicando os talentos da moçada da região. Não há computadores nem câmeras de vídeo suficientes para dar conta do pique e da criatividade dos jovens que Everaldo orienta. E é muito bom chegar lá e ver que Felicidade, agora, é mais do que o nome de uma mulher aguerrida. |