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PASSOS E CRÔNICAS
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O Capeta chupando manga

O Capeta chupando manga


(Antonio Barreto)

 



Para Marquim Agege e Tereza Portugal, primos do coração. E à memória de Lucas, que não conheci, mas nem precisava: porque era filho deles.


 

Era uma fria manhã de julho no Reino de Belorizontália. Eu estava debaixo das cobertas. Na lomba. Com vontade de fazer nada. Mas Heráclitus José Pancada de Castro, vulgo Zé Pancada grande amigo da Ventania, perto de Passos, antiga capital do faroeste mineiro – conseguiu uma proeza espetacular: esse escriba atender ao telefóquio.

Eu tinha acabado de acordar. Amarrotado ainda com uns pesadelos de boi bravio correndo atrás de mim. E de repente o boi vira um editor. O chão acaba e vira abismo. O editor tenta me empurrar para dentro do buraco. E aí o ringstone do furioso e fofoqueiro aparelho toca. Eu atendo automaticamente, suando frio. Uffs! Era o Zé Pancada dizendo que seu filho, o Demócritus Martelus, vulgo Martelinho, ia chegar de férias. E teria que ir a um oculístico... Antes que me perguntem o óbvio do ovo, já vou contando: isso é histórico. Mal de família: as palavras e os nomes estranhos que eles usam. Telefóquio é telefone. Oculístico é oculista mesmo. E por aí vai... (Lá embaixo tem mais, preparem-se! Pressinto que vem aí um te(x)tamento. Embora também presuma que vai dar pra todos entenderem mais ou menos tudo, por inferência e contexto. Tentemos, pois).

Os nomes e sobrenomes desse pessoal? Explico: o pai do Zé chamava-se Panclécius Dopomênidis. O avô: Estúrdius Demóstinis. E os irmãos, na sequência: Sócratis Plênius, Húmida Filotestis, Leônidas Alfinestis e Teócritus Alicatis. A grafia é essa mesmo, não se assustem. Está tudo registrado no Cartório de Ofícios e Notas da Ventania, hoje Alpinópolis. É só pedir que o tabelião Tornovis, vulgo Paçoca – se ainda vivo for – oferece os assentamentos. Só não se sabe é por que motivo o “José Pancada” foi inserido na carteira de identidade do Heráclitus... Mas isso é outro assunto. Vamos em frente que atrás tem gente. De modo que Zé Pancada, grande conhecedor da alma humana, já foi logo desembrulhando a biografia do seu primogênito:

– O Martelinho tem 10 anos e é o capeta chupando manga, manovéio! Muito inteligente, recita poemas... Porém, tem que ficar de olho nele! É a primeira vez que vai pra capitália... – Pensei: “Capeta chupando manga? A imagem é engraçada, mas vem rabo de foguete na segunda parte dessa prosa.” E não deu outra. Zé Pancada continuou:

– É menino bom, de boa índole, você vai gostar. Quebra esse galho pra mim, vai? É só por um mês. Vai chegar no belônibus das oito, na redoviória de Berzonte... – E desligou. Olhei o regrológio e já eram sete e trinta. Fiz as contas e descobri que o Pancada Júnior estava prestes a desembarcar na tal redoviória.

Como seu pai conhecia a alma humana! Mandei-o para os infernos de Dante. Para os pântanos de Cérbero e para os quintos dos zinvermes...

(Aqui, deixa eu fazer um parágrafo para tentar explicar essa palavra: zinvermes. É que, toda quinta-feira, temos uma confraria intitulada “Quinta dos Zinfernos”. O evento ocorre no Agosto Butiquim ou na Casa dos Contos, onde me encontro com um bando de amigos e diabos gozadores. Todos literatos alambicados – e da maior qualidade – pra conferir como conseguimos nos ver e rever depois dos cinquenta anos. Além de, é claro, malhar a literatura que veio, evém e virá depois de nós: he-he! Como vermes somos (e a vermes voltaremos), assim designei tal sodalício: Quintas dos Zinfermes... Entenderam? Eu também não).

Mas isso não importa. Importa é o caso, ou seja: malhar o bife do Martelo. Mesmo porque, agora, já me encontro mais láite. Na base do “tuducalmomuitiobem”, sacou? Então vamos lá... Uffs! Como estava frio lá fora! Por Santa Xurupita!

Berrei outro uffs pro Pancada, seguido de um putzgrila! Bati o telefóquio na cara dele. E já fui logo tirando, automovelmente, o tartacarro da garagem pra ir buscar o tal capeta-teen. No caminho ainda me lembrei de uma coisa importante. Enquanto Demócrito, o filósofo grego, ria-se continuamente da loucura humana – no quinto século antes de Cristo – a Heráclito o mesmo motivo o fazia chorar.

Com o elefante atrás da orelha – não fosse a filosofia apenas o vazio que fica entre um touro bravio e um editor, ou um abismo entre a remela e o sono – vislumbrei, com espanto, uma pequena vaguícia no estacionamundo. Fiz as manobras. E desci as escadarias que me levariam ao Desembônibus. Lá estava ele devidamente desembarcado: o mini-capiroto, o pé-de-pato, o temba-júnior. Me esperava com a mochila nas costas e uma placa de papelão no pescoço. Na placa, a seguinte inscrição: MARTELINHO.

Na primeira sondagem à percussão considerei-o um menino normal. E até meio parecido comigo quando tinha aquela idade dos gibis e das figurinhas. Idade essa que me foi propiciada, com louvores, pelo primo Marco Agege: o maior gibizeiro de Passos! E acho até que foi por causa dele (e dos gibis que me emprestava) que acabei virando escritor. Cá entre nós... a primeira culpa é dele! Depois é da Gilda Parente, minha adorável professora de Português. Esse primo, hoje, é artista plástico e restaurador de renome nacional. Mora em Tiradentes, onde tem um ateliê (Divinas Gerais) que é um “sofrimento”... de tanta coisa linda pra ver! 

Bão, mas voltemos novamente ao capeta-teen, que agora faz cara de paisagem, ou de Pato Donald... Lá está ele: orelhões de Dumbo. Dentuças de Pernalonga. Nariz de Pateta. Óculos de Professor Pardal. Redemoinho na cabeça. E sobrancelhas arriadas, de boi sonso, iguais às minhas! As minhas, de tão arriadas, chegaram até a me valer o sugestivo apelido de Pinguela Caída. A turma, naquele tempo, era má, muito má...

Mas então? O que vai acontecer? Se acalmem, jovens leitores... Xeu contar primeiro uma lembrança. Antes que o futuro dele passe na frente do meu passado. Eis que o vi! Martelinho parecia o personagem de um filme famoso da minha infância. Trocando o t pelo c, tirando o h, e acrescentando o pão e vinho:“Marcelino, pão e vinho”.Um santo!

– Vem de lá um abraço no tio! – falei entusiasmado. E ele, carinhoso, já foi logo me beijando o rosto. E (pasmem!) me pedindo a bênção. É claro que abençoei. E voltamos no maior bate-papo. Como se já nos conhecêssemos há décadas. (Na verdade eu me via nele. Como se parecia comigo! Me deu uns 30 anos de gruja. Remocei. E sem precisar de bisturi). O entusiasmo, no entanto, durou pouco. Assim que chegamos em casa começaram as coceiras na minha cabeça, nas costas, nos braços, na barriga e na sola dos pés. Corri pro banho. E à tardinha ele confessou que era pó de mico. Argumento: “Vazou... Foi sem querer, titio...”

Mas aguentei firme, por uma semana. Tempo suficiente para que o anjinho colocasse pimenta nas escovas de dente, cinzas do meu execrável cigarro mentolado no aquecedor, açúcar no potinho de sal, vice-versa e etcépteros. Por desordem desalfabética, ainda fez as seguintes atividades performáticas:

l) Empenou as teclas da Valentina, minha velha máquina de escrever que havia resistido até a Guerra Irã-Iraque. E que estava decorando a sala. 2) Capturou (e fritou) os três calangos da área de serviço. Calangos que eu preservava ecológica e estrategicamente... Apenas para equilibrar meu ambiente infestado de vírgulas, aspas, reticências, etcépteros e outros insetos que voam pelo texto. 3) Colou com tenaz todas as folhas da última resma de papel-rascunho, onde pré-detono esses pós-garranchos pré-linguísticos (antes de usar o computador). Ou antes de catar milho no t-t-t-t-t-teclado. 4) Esvaziou a carga da minha caneta Bic preta de estimação, sem a qual eu não consigo sobreviver à brancura das folhas de papel. 5) Misturou todas as capas dos LPs que guardo até hoje. Explico: fui achar o Zé Côco do Riachão num álbum do Frank Sinatra. O Pavarotti no Tom Jobim. Pena Branca & Xavantinho no duplo do Cole Porter. Roberto Carlos no Zeca Pagodinho. Leonard Cohen no Liga Tripa. E Sarah Brightman no Vinicius de Moraes... Erde! (diria aquele famoso pintor de palavras, em Curitiba: RWCapistrano, que não é bobo nem nada!). 6) No banheiro, o Martelinho passou o meu xampu para a embalagem do creme rinse (e rinse-versa). Usou o creme dental como sabonete. E – não sei como – conseguiu derreter o sabonete. E colocá-lo dentro do tubo de dentifrício! Que estrupício! 7) Por último, o anjo despejou um vidro inteiro de sal de frutas no meu aquário. Logo ali, onde eu criava Xispíxio e Xispíxia: meu lindo casal de peixotinhos vermelhos! Motivo: ele queria extrapolar as idéias de um poema antigo que eu escrevera (chamado Menino de Deus) e no qual um neto-capetinha também jogava sal de frutas no aquário de sua avó. Me disse que gostava de recitar tal poema. Oooops! Achava-o engraçado. E se saiu com essa:

– Os peixinhos soltavam bolhas muito tristes pela boca, tio! Pensei que estavam com dor de barriga e má digestão...

Nunca fui de fugir do pau. Mas dessa vez pedi o penico e levei o Martelinho, imediatamente, para o oculístico. E de lá, para a redoviória. No caminho ele ainda solicitou uns óculos, também, para a sua tartarruga: a enrugadíssima e peticega Tartalerda. E um passeio de elevador pelo Edifício JK (um dos edifícios mais altos de Beagazoom: o único 32 andares de Niemayer!). Ali, ele tencionava experimentar, num voo solo, “a nova capa do Batman”. Em seguida, quis fazer chantagem emocional comigo, recitando a estrofe final do aludido poema:

Obrigado, Senhor, por mais esse dia/ em que pude expulsar minhas tristezas/ e aprender dos homens sua graça/ de viver em paz consigo mesmos.”

E descansei no décimo quinto dia...

Mas, na semana passada, sete anos depois, ele chegou de novo, para mal dos meus pecados... Heráclitus Pancada e seu filho, Demócritus Martelus, acabaram de incendiar o que restou de minha parca e vã filosofia.

Mas isso é assunto para outra crônica. Se eu ainda estiver vivo até lá...

 

 

(antonioba@uol.com.br)

 



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