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Teve um tempo

(Souza Freitas)

 

Em que ovos cozidos em casca constavam do cardápio de tira-gostos de botequins. Ao adquirente cabia a tarefa da descascação. O sal para como hoje se diz degustá-los era por conta da casa.

Compras se faziam em vendas que vendiam de tudo ou quase por meio de cadernetas destinadas pelo vendeiro a cada distinto freguês. Os indistintos que fossem cantar em outra freguesia.

Gastos mensais registrados nessas cadernetas de crédito não embutiam escorchantes juros nem misteriosos custos como os atuais cartões. Rendiam sim quando de sua quitação um brinde no ato ao quitador. Em geral uma lata de goiabada.

Rádio é o que havia e dia e noite se ouvia. Violões plangiam e flautas soluçavam. Canções socioeducativas instruíam mulatos inzoneiros e assanhadas mulatas que cachaça não é água e que se Conceição subiu ninguém soube nem viu.

Com a imaginação preenchia o radiouvinte o transcorrer de ações em descabeladas novelas. Baratíssima farra a produção radiofônica. O amassar de papel sugeria pavoroso incêndio e o chacoalhar de folha de zinco terrível tempestade.

Alvarenga e Ranchinho frequentavam paradas de sucesso com duas caveiras que se amavam. Jânio e Adhemar disputavam eleições. Adhemar de qualquer maneira adorava disputar. E a vassourinha prometia varrer a bandalheira.

Nos bancos escolares reguadas não deixavam de alvejar coquinhos alheios às quatro operações. Contas de mais e de menos. Operações de vezes e de dividir. E ai de quem não sabia que na mata cantava a sábia sabiá.

Vencida a primeira etapa seguia-se a admissão ao ginásio. A petizada admitida enfrentaria então entre matérias outras o qui quae quod latino. O my Bonnie lies over the ocean. E ulalalá la douce France cher pays de mon enfance.

Teve um tempo em que existiam petizes. Mestres e aprendizes. Fogueteiros e calceteiros. Foguistas e maquinistas. Condutores e motorneiros. Dentistas práticos e cursos de datilografia. Código Morse e a rapidez da telegrafia.

Cartas serviam para que pessoas físicas e jurídicas à distância se comunicassem. As familiares principiavam aqui nós estamos indo todos bem graças a Deus. As comerciais rematavam sem mais para o momento subscrevemo-nos atenciosamente.

Gibis ganhavam a pecha de publicações deletérias e prejudiciais à formação do caráter infanto-juvenil. Entre porém O tronco do ipê ou A moreninha e Tarzan o rei da selva ou Flash Gordon no planeta Mongo hesitar quem havia de?

Trigger chamava-se o cavalo de Roy Rogers. Por Champion atendia o de Gene Autry. Grande velho oeste que dispunha até de herói e cavalo com dupla identidade. Dr. Robledo passava a Cavaleiro Negro e Molenga virava Satã.

Teve um tempo em que com rigor reverenciava-se a morte. Viúvas vestiam-se de preto e viúvos ostentavam na lapela tarja de idêntica padronagem. Todos os que passavam desta para melhor deixavam imorredouras saudades.

Discos tinham dois lados. Sessões de cinema interrompiam-se no meio para a troca de rolo. Conhecedores exigiam cerveja de casco escuro e mata-bicho denominava-se a cachaçazinha de rigor antes das refeições.

Aos passageiros de ônibus e aos pacientes e visitantes de hospitais solicitavam-se diferenciados favores. Que não fumassem os primeiros cigarros de palha ou cachimbos e que não falassem alto nem cuspissem no chão os segundos.

Provérbios de intensa profundidade filosófica pirografados em plaquetinhas de madeira compensada adornavam paredes. Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere. Que Deus te dê em dobro e assim por diante.

Casos incríveis nem sempre verídicos costumavam circular. Do fazendeiro que arriscara e perdera sua inteira propriedade num jogo de cartas ou do pacato pai de família que tudo abandonara pelo amor da trapezista de circo.

Frutas e verduras eram colhidas em hortas e pomares e não em gôndolas de supermercados. Pão era pão e queijo era queijo. Light vinha a ser nome de empresa e às vezes acontecia de o pau comer quando alguém escrevia e não lia.

Teve um tempo em que por cinco letras que choram adeus se traduzia. Tempo que entrou por uma porta e saiu por outra e que na memória dos que ficaram torna-se cada vez mais descontínua e esfiapada história.



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