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O homem que quase foi Nabucodonosor
(Sergio Antunes)
Seu nome era Tibúrcio. Quando o conheci, já era adiantado em anos. Devia ter uns sessenta, talvez menos. Na época, eu com sete ou oito, quem tinha mais de trinta era decididamente um pré-histórico.
Na verdade, o seu nome era Tibúrcio de Paula. Gordo, olhos saltados, andava como marreco, com os grandes pés, como se fossem ponteiros de relógio, marcando dez e dez. Parecia bravo. Pelo menos para mim, criança assustada diante de um oficial de justiça. Essa era sua profissão. Carregava uma velha pasta de couro e se vestia sempre com um terno jaquetão desmilinguido. Pelo menos, era assim que me lembro. Na época, como, aliás, agora, eu tinha medo de autoridade. Sobretudo se usasse uniforme. Guarda de jardim, lanterninha de cinema e zelador da piscina. Eu não sabia bem para o que servia um oficial de justiça. Mas, certamente, era mais poderoso que lanterninha de cinema.
Agora, pensando nele, acho que se parecia mais com os sambistas da velha guarda da Portela, doce e inofensivo como os velhos sambistas da velha guarda da Portela.
Entretanto, quando meu pai me contou o caso, achava, apenas, que ele era uma autoridade. E isso me fazia ficar mais espantado.
O caso, meu pai garantia que era verdade. E eu não tenho por que duvidar.
Eram todos jovens, meu pai e Tibúrcio, vivendo em Lins, num tempo em que a diversão maior era caçar sapo com bodoque ou frequentar as festas da igreja.
As festas da igreja incluíam, invariavelmente, uma peça de teatro que, invariavelmente, relatava histórias bíblicas.
Foi quando a Congregação Mariana, eles todos eram da Congregação Mariana, imagino que para namorar as Filhas de Maria, foi quando a Congregação Mariana resolveu encenar a peça “Os Jardins Suspensos da Babilônia”.
Distribuídos os papéis, coube a Tibúrcio o de Nabucodonosor.
Nabucodonosor, como ensinava o velho livro de história de Joaquim Silva, do Colégio Salesiano, foi imperador da Babilônia. Entre outras coisas, mandou construir os jardins referidos no título da peça onde se passava um caso de amor, sempre ambientado nos bancos do bucólico cenário, única referência ao antigo imperador. Podia a história se passar em qualquer jardim de qualquer cidade. Ou, pensando bem, podia se passar em qualquer lugar e nem precisava ser um jardim ou ser a Babilônia.
Mas, como os padres tinham muitas vestimentas do tempo de Cristo, qualquer peça tinha que se ambientar em remotas eras nas quais se imaginava ter utilidade as roupas da paróquia.
Tudo isso para explicar que Nabucodonosor era absolutamente dispensável na peça e a sua presença era muito mais em função de compensar Tibúrcio, que numa peça anterior, vestido de Jesus Cristo, amarrado na cruz, teve sua sunga arrancada pela ponta de uma lança de um centurião bêbado, para escândalo total da toda a sociedade e vergonha indisfarçável do crucificado.
Pois é. Tibúrcio não era ator dos melhores, com grande dificuldade de decorar qualquer fala que tivesse mais que três palavras. Então, Nabucodonosor cabia como uma luva. Era só isso que ele devia dizer, desembainhando uma espada de madeira: eu sou Nabucodonosor. Mas era o suficiente para deixar Tibúrcio muito nervoso. Desde os incontáveis ensaios até, principalmente, no grande dia da estréia.
Por isso é que resolveu tomar uns conhaques. Para criar coragem.
Então, já paramentado com armadura no peito, bota e elmo adornado com um longo penacho na cabeça, Tibúrcio, ansioso, aguardava na coxia a deixa para entrar em cena. Até que a deixa veio e ele, ou porque estivesse nervoso, ou porque estivesse bêbado, há controvérsias, teve que ser violentamente empurrado para o palco, o que ocasionou um desalinhamento de seu pomposo chapéu de penacho, resultando mais nervosismo e total inabilidade para desembainhar a espada.
Mas era a vez dele e ele tinha que falar, ainda que assustado pela multidão que lotava a platéia do Centro Paroquial. Aí ele bradou, como sua voz de barítono, eu sou, eu sou. O que seria ele mesmo? Eu sou caduco. Não. Caduco não era. Então, eu sou trabuco. Não, também não, maldita palavra esquecida. E, quase chorando, espada e bainha se desentendendo, concluiu, antes de sair correndo do palco, eu sou um filho da piiiiiiiiiii. |