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 Quadro de Teisuke Kumasaka (uma rua de Lins, em 1953)
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A minha Macondo
(Sergio Antunes, sergioantunes@ig.com.br)
Lins é minha Macondo. Pena que eu não sou Gabo.
Para quem não entendeu eu explico. Macondo é a cidade imaginária, criada por Gabriel Garcia Marques, o escritor colombiano que escreveu Cem Anos de Solidão. Não era uma cidade qualquer. Era onde aconteciam todas as coisas que o realismo mágico permitia acontecer. Em Macondo, por exemplo, choveu mais do que no dilúvio de Noé. Choveu quatro anos, onze meses e dois dias.
Em Lins nunca choveu tanto. Mas, do olho da minha infância, a mágica também era real.
Foi em Lins que eu vi um anjo de barro balançar a cabeça para agradecer um donativo e foi lá também que ouvia sinos tocando sozinho toda vez que alguém morria.
Havia quartos escuros onde fantasmas arrastavam correntes e armários imensos, onde o passado dos adultos se escondia entre naftalina e baratas domesticadas.
Havia pés de mangas nas ruas de paralelepípedos e as mangas mais doces que a memória pode provar, esparramadas no chão, depois das chuvas de verão.
E havia loucos que assustavam crianças com os sacos de estopa que carregavam nas costas e havia padres com batinas pretas com santinhos e velas acesas nos bolsos. E havia um jogador de futebol com o chute tão forte que uma vez arrancou a mão do goleiro, furou a rede, derrubou o alambrado e rachou o muro do estádio.
Uma tia-avó, abandonada pelo noivo na porta da igreja, decidiu nunca mais sair do quarto. E dela, só se escutava a tosse desesperada num porão proibido, não havendo notícia de que alguém tenha confirmado sua existência. Outra, de quem se dizia abandonada pelo marido, trocada pela trapezista de um circo, que despertava rumores de que nunca mais tirara a roupa preta e a quem se atribuiu a irremovível decisão de nunca mais menstruar.
Na minha Macondo, os amores desesperados eram resolvidos com Formicida Tatu, ingerida com Guaraná Batuta dos Irmãos Botasso. Mas, dos que repudiavam a morte com gosto de refrigerante, havia histórias de que, com papel de jornal para forrar o chão dos cafezais, consumavam o matrimônio da maneira irreversível, que só com o casamento de papel passado na delegacia podia se limpar a honra dos pais ofendidos.
E havia casas mal assombradas, de onde mulheres lindíssimas saiam nas madrugadas para namorar os hóspedes do Hotel dos Viajantes e havia alfaiates e alfaias e havia bucheiros, com buzinas estridentes e havia vendedores de bijus e de sorvete, um que se anunciava com uma matraca e outro com o apito do qual se produzia metade da escala musical.
Havia circos com os leões iguais aos que Tarzan abatia na matinê do Cine São Sebastião, o Palácio Encantado da Noroeste e globos da morte, dentro dos quais motociclistas intrépidos de gibis, com capacetes e óculos, se cruzavam em velocidade tão grande que a vista não conseguia acompanhar.
E havia as quaresmas e as procissões, crianças vestidas de anjo e um tocador de tuba gordo, com cara vermelha. E havia os ciganos, que roubavam crianças e os gregos e polacos, japoneses e árabes. Mas havia, também, uma escola de esperanto e uma mulher que morava numa casa com um cartaz: passa-se ajour, coisa que até hoje não sei o que significa. E uma casa com colunas gregas onde, em noites de orgias, pessoas estranhas chamados maçons, comiam bode invocando o demônio.
Outro dia o Rubens Kumasaka me telefonou e ofereceu um quadro, pintado pelo pai, Teisuke Kumasaka, que foi professor de Manabu Mabe. O quadro era uma rua de Lins em 1953, ano em que foi pintado. Traz o Lins Hotel no primeiro plano, onde se hospedavam os corretores de café, com o Restaurante Marrocos, o toldo sobre as mesas da calçada, um carro chevrolet belair encostado e, ao fundo, o Edifício Rubiácea, também conhecido por Sete Andar, onde, anos mais tarde, abri meu primeiro escritório de advocacia.
Não tive dúvidas. Pendurei Macondo na parede da sala.