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Combatendo o bom combate


Combatendo o bom combate


(Márcio Xavier)

O fim do semestre acadêmico me trouxe um alívio indescritível. O acúmulo de papeis profissionais, universitários e familiares, somados à minha idade - posto que não tenho mais vinte anos - me exigem, ano após ano, um desdobramento e uma versatilidade não tão fáceis de manter. Às vezes sucumbo mesmo, diante de alguma tarefa ludibriando-me com um julgamento tendencioso, segundo o qual alguma tarefa não seria relevante e poderia ser ignorada. Sei que são estratégias de sobrevivência comandadas pelo meu subconsciente, do contrário a estafa já teria me atirado em uma cama hospitalar.

Porém sempre fica em mim a sensação de insuficiência. Sinto que não li o quanto devia, que poderia ter caprichado mais em algum trabalho acadêmico, que poderia ter-me dedicado mais à família e aos amigos, que poderia ter sido mais eficaz no trabalho e obter melhores resultados, que poderia ter feito algum trabalho voluntário ou militado na política, que poderia ter cuidado mais de mim indo ao dentista ou chamando a acupunturista, que poderia ter feito algum curso suplementar, nadado, pescado, viajado...

Mas o deus Chronos é implacável e equânime: se recusa a privilegiar a quem quer que seja com a benesse de dias maiores, e muito menos com os tempos infinitos, com os quais sempre sonhei. Limitado por Ele, e segundo um certo perfeccionismo que me persegue, sinto-me sempre um ser incompleto e inacabado. Há sempre algo que eu possa fazer ou aperfeiçoar. Afinal, se algo merece ser feito é porque merece ser bem feito. Do contrário nem vale à pena fazê-lo. 

Por todo esse turbilhão de pensamentos que me perseguem o tempo todo eu fico injuriado ao ver colegas na universidade ou no trabalho seguindo a vã filosofia do sambista que prega "deixe a vida me levar, vida leva eu". Nada contra o autor dos versos. É só uma "despreferência pessoal" tanto para com ele como com a obra. Mas tomo-os emprestados para demonstrar meu inconformismo com essas pessoas que desperdiçam a vida. São seres humanos que, abdicando de sua humanidade, trabalham pensando tão somente no mirrado salário do quinto dia útil; estudam apenas para "tirar nota" e "ganhar um diploma"; acordam por acordar já que o despertador lhes interrompe o sono. Vivem por viver, vivem por acaso. Ou pensam que vivem, posto que suas vidas carecem de intensidade, profundidade e direção.

Gostaria eu de poder comprar dessa gente os dias e horas desperdiçados. Eu realizaria mais e melhor tudo aquilo que tomo por missão. Mas Chronos também detém o monopólio do mercado de tempo. Não permite escambo ou venda, mas antes toma de volta para si cada minuto desperdiçado, para nunca mais devolvê-lo ao esbanjador.

Lutando por me livrar da auto-severidade vejo porém que o ano que se encerra foi generoso comigo em todos os aspectos. Prosperei, aprendi, fiz novos amigos, escrevi, li, briguei, fiz as pazes, assisti a filmes, subi em árvores, pesquei, vadiei, errei, acertei, em suma vivi. Vivi com apego sôfrego a cada minuto que caiu em minhas mãos como presente, desde o acordar com a querida trazendo a infalível caneca de café, até quando já era a madrugada do dia seguinte e esgotado consegui me esborrachar na cama para o que seriam minhas poucas horas de sono. Mas só tenho a comemorar.

Em suma sou grato à Vida. Agnóstico e mais apegado a São Tomé do que aos santos que creram sem ver, não professo nem isto nem aquilo. Mas antes procuro minuciosamente as pequenas verdades que cada momento encerra e revela. Tirar os infinitos véus de cada fração da vida é para mim uma fonte de satisfação infinita. Sem os apegos religiosos, restam-me os versos de Sérgio Britto, que sabiamente professam uma fé descuidada, porém confiante: "O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído". Seja lá quem ou o quê for esse "acaso" que nos proteja sempre. Inclusive do risco de "viver por acaso".

Deixo aqui meu agradecimento a todos os ouvintes e leitores, mas sobretudo um convite: viva com intensidade e dedicação cada minuto de suas vidas. Como a criança, que absorta pela brincadeira é capaz de se esquecer tudo à sua volta e mergulhar e emergir do universo do seu brinquedo. Um forte abraço!

 


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