Os dias se passaram mantendo a rotina estressante do sofrimento: grito, choro, sirene de ambulância, agitação pelos corredores. Mariana não apresentava sinal de dor, no entanto a mancha da perna não sarava. Ela sentia enjoos e tinha dificuldade para comer. Não tomava mamadeira igual as outras crianças. Gostava de café com leite no copo, todavia, desde que chegara ao hospital, não queria saber de leite. Eu insistia, mas era difícil controlar a ânsia de vômito ao sentir o cheiro de leite quente. No almoço, ficava a entretê-la contando histórias, desenhando e, aos poucos, conseguia fazê-la comer. Continuava com soro e deitada, sem poder levantar.
Banhos e necessidades, na cama. Certa vez, percebi que ela não estava fazendo xixi. Comentei com Dr. Ronaldo, jovem carinhoso, apreciado por nós duas, plantonista do hospital, que solucionou o problema com um simples procedimento: algodão embebido em éter bem gelado em cima da barriguinha dela. Ela chorava de dor e, sentindo-se envergonhada, puxava a camisola, enquanto o xixi saía, aliviando-a por completo. Eu respirei aliviada, pois se não desse certo com o éter, seria necessário introduzir uma sonda. A partir desse dia, não apresentou mais retenção urinária. Todas as tardes, Dr. Darlan a visitava e me animava com suas palavras:
- Se quiser, podemos transferi-la daqui. Neste lugar, até as paredes são contaminadas. Disse, naquele dia, que este era o único hospital que aceitaria a Mariana, o mais bem preparado em doenças infecciosas, o melhor para os primeiros dias, mas agora já não corre risco de vida. Posso falar com a direção e o médico responsável...
- Bem que eu queria, mas acho melhor não. Tenho medo... E se ela tiver uma recaída? Vão querer transferi-la pra cá e se não houver vagas? O hospital tá lotado. Ouvi dizer que estão rejeitando crianças, encaminhando-as para um outro hospital.
Ele concordou comigo, conversamos mais um pouco e, como sempre fazia, se despediu dando-lhe um beijo no rosto sem se preocupar com o contágio da doença.
- Mãe, vamos brincar de adivinhar desenhos? Primeira!!
Imediatamente, peguei papel e canetas coloridas na bolsa.
Ela adorava desenhar, enquanto eu adivinhava ou vice-versa. Eram desenhos de coração, casas, flores, sol, nuvem, avião... Depois, eu escrevia palavras faltando letras, para que ela as completasse. Que felicidade ver que não tinha perdido a noção de nada! Meu coração devagar ia se aconchegando no peito.
- Espera, mãe! Você não desenhou a folha da flor!! – fez a folha grudada ao caule – Pronto. Agora, sim. Escreve aí: “mamãe”.
Eu me sentia inteira e buscava o equilíbrio. Via a doença ir embora e, pouco a pouco, sentia a esperança surgir. No entanto, me entristecia, profundamente, saber das más notícias que corriam pelos quartos.
De vez em quando, mães que acabavam de chegar, vinham conversar comigo e ver a Mariana. Isso me abatia, tinha vontade de chorar, mas deixava o choro embutido fazendo doer meu peito. Aquelas mulheres eram iguais a mim, quando cheguei: olhos inchados e completamente descontroladas. Eu as encorajava com toda a minha força fraca e experiência daqueles dias.
O quarto era arejado: três camas, três mesinhas de cabeceira, três cadeiras e um banheiro. Não havia cama para as mães. Do lado esquerdo, a menina Daniele. Do lado direito, Bernardo que tinha feito duas punções, em vão, sem que detectassem o tipo de bactéria a ser combatida. Ele era muito inquieto. Várias vezes, o soro saía da veia, para sofrimento do menino, da mãe e nosso que assistíamos a tudo.
Mariana chorava junto com o amigo. Morria de medo de que o dela saísse também, por isso tinha cuidado e não mexia o braço. Entretanto, teve que ser trocado, já que a veia estava cansada e desgastada. Foi um horror essa troca.
No quarto da frente, outras crianças. Entre elas, a Suellen. Seu estado inspirava cuidados. A menina, de quatro meses, necessitava de balão de oxigênio e estava com sequela no cérebro.
As mães tomavam café da manhã, almoçavam e jantavam todos os dias. Fui somente no primeiro dia jantar, por insistência da Isaura, portuguesa simpática e confiante, mãe da Daniela:
- Vai jantar, minha filha. Sua menina tá dormindo. Olho ela pra você. Vai precisar comer, pra aguentar isso aqui...
Andava-se muito para chegar ao refeitório. As pessoas da rua cortavam caminho por dentro do hospital. A iluminação era precária. Fiquei com medo e comecei a correr. Nem comi direito. A comida não descia. Quando cheguei, encontrei minha filhinha chorando e prometi nunca mais sair de perto dela.
Eu me virava com as frutas que vinham de sobremesa pra Mariana e ela não comia tudo ou, então, com biscoitos ou sanduíches que meu marido e as visitas, que já eram permitidas, traziam escondidos na bolsa. Certa vez, minha mãe ousou: trouxera purê com bife e pudim de leite condensado. O guarda, sentindo o cheiro da comida, revistou sua bolsa e não permitiu que entrasse com o banquete. Minha mãe chorou, dissera que eu precisava comer, poderia adoecer. O homem, sensibilizado, cedeu, pedindo que eu fosse discreta e não deixasse nenhuma enfermeira ver. Comi, sem vontade, dentro do banheiro, sentada no vaso.
Frequentemente, algumas mães me pediam para dar uma olhadinha nos seus filhos, enquanto desciam para fazer suas refeições, já que eu não ia mesmo.
- Você tá de novo de babá? – Disse-me uma enfermeira, com ar de reprovação.
Confirmei com a cabeça e continuei a acarinhar o braço da Suellen, que correspondia com um sorriso leve.
- Pois eu vou te contar uma coisa que vai te deixar de queixo caído. - chegou bem perto de mim, falando baixo - Elas demoram na hora do jantar, não é?
- É, um pouco...
- Se eu te disser que estão lá embaixo transando com os guardas, você acredita?
"Que horror! Que nojo!" – Pensei. Que falta de sentido aquela revelação! Olhei com piedade para os inocentes filhos de mães irresponsáveis. Não consegui dizer nada, a enfermeira percebeu minha decepção.
- Isso é comum. Sempre aparecem mães assim. Adoram ficar aqui. Muitas nem querem que os filhos tenham alta... Elas comem, não precisam trabalhar e ainda se divertem... Verdade!
Apesar de saber o que acontecia, não deixei de olhá-las. Eu estava completamente envolvida com aquelas crianças.
Todos os dias, médicos e acadêmicos vinham ver os pacientes. O fato de usarem branco era o bastante para Mariana começar a chorar e sentir um medo horrível. Ficou com trauma desde o dia da punção. Ela só se acalmava, quando não via nada nas mãos deles.
Faziam perguntas sobre os sintomas, eu respondia a todas e esclarecia qualquer dúvida. No entanto, raramente, respondiam à minha mesma pergunta: "Quando ela terá alta, doutor?!" Ninguém podia precisar.
Certa manhã, ao entrarem, no quarto, senti o clima diferente. Eles se aproximaram da cama para examiná-la.
- Tá vendo esta manchinha que estava cheia de bichinhos, Mariana? Mostrei a você outro dia, lembra? Já está sarando. Não tem mais perigo de contágio. Você está curada e de alta. – disse Dr. Ronaldo. E, virando-se para mim:
- Ela está bem, sem sequelas e normal. Entretanto, não está imune à doença, tem chance como qualquer outra criança que nunca teve Meningite. Não quero que fique pensando nessa possibilidade, mas siga as recomendações que deixarei por escrito.
Aproximou-se da cama e despediu-se da Mariana carinhosamente:
- Vou sentir saudades suas, sabia? – fez-lhe um carinho no rosto seguido de um beijo na testa. - Mas tô muito feliz de saber que vai embora e curada.
Então, o sorriso e a covinha iluminaram a palidez de seu rosto, dando graça àquele lugar frio e sombrio. Chorei, me arrepiei, me emocionei e agradeci. O cabelo embolado de ficar deitada deu um certo trabalho para desembaraçá-lo:
- Céus!! Você está com um ninho na cabeça, Mariana! Acho que tem um passarinho aqui dentro.
Ela soltou uma gargalhada.
Saí daquele hospital levando minha filha no colo, deixando para trás dias terríveis e de grande aprendizado na minha vida.
Hoje, vinte anos depois, relembro o ontem sem me punir com lembranças doridas. Penso: na alegria da chegada a casa; na sensação de fragilidade, revigorada com a vida retomada aos meus braços; da presença de Deus sempre ao meu lado; dos amigos; da força dos parentes; da solidariedade; das orações; daquela mulher simples com a filha viva debaixo da manta, me sorrindo e me indicando a possibilidade da cura; do Dr. Darlan, grande amigo e médico dela até hoje. Tenho um carinho enorme por esse homem que, com total desprendimento, mostrou que essencial, na sua profissão, é o amor ao próximo, independente de valores materiais.
Não me faz mal lembrar, por exemplo: de que sofremos preconceito por parte dos pais dos alunos do colégio, onde eu trabalhava e ela estudava; da confusão que as mães fizeram; do absurdo de proibir que os filhos, meus alunos, me beijassem na hora da entrada e da saída. No entanto, me orgulho da atitude da minha diretora Lúcia que, para provar que a vida vale mais do que qualquer sentimento mesquinho, ficava com a Mariana no colo, até que todas as turmas entrassem e as mães de plantão, no portão, as vissem. Disso jamais me esquecerei. Ela sabe da importância que tem na minha vida, do quanto eu a considero.
Mariana é uma moça linda e perfeita; batalhadora e dedicada; responsável; sabe o que quer. Só me dá orgulho e alegria. Agradeço a Deus por tê-la salvado. Certamente, nada acontece por acaso. Sei que aprendi muito com tudo que vivenciei dentro daquele hospital.
Minha vida completa-se com mais duas vidas de meninas, que vieram ao mundo por amor. Juntos, nós cinco, formamos uma família. E é por essa família que dedico minha vida.